Jesus é Deus?

Como Jesus pode ser Deus e, ao mesmo tempo, homem? Ele deixou de ser Deus enquanto esteve na Terra? Sendo Deus, como poderia sentir dor? E se assumiu uma natureza humana, permaneceu com ela após a ressurreição?


Quando falamos no homem Jesus Cristo, não estamos nos referindo simplesmente a alguém bom, sábio e influente que viveu a muitos séculos atrás. É algo muito mais profundo! De acordo com a Bíblia, trata-se do próprio Deus, assumindo a natureza humana (Jo 1.14).

A divindade de Cristo – Jesus é Deus

A Bíblia claramente se refere à Jesus como sendo Deus: “O Verbo era Deus” (Jo 1.1), “Deus Unigênito” (Jo 1.18), “Senhor meu e Deus meu” (Jo ‭20.28), “Deus bendito para sempre” (Rm 9.5), “Nosso Deus” (2Pe 1.1), “Grande Deus” (Tt 2.13), “Verdadeiro Deus” (1Jo 5.20) e “Deus forte” (Is 9.6).

A Bíblia também declara que Ele possui todos os atributos exclusivos de um ser divino: onipotência (Fp 3.21, Jo 5.19-21), onisciência (Jo 2.25, Jo 16.30, Ap 2.23), onipresença (Mt 28.20, Mt 18.20), eternidade (Is 9.6, 2Tm 1.9), soberania (Mt 11.27, Jo 17.1-2, Ef 1.20-21, Fp 2.9-11) e imortalidade (Jo 2.19-22, Jo 10.17-18). Diz que Jesus é o autor da vida (At 3.15), criador de todas as coisas (Jo 1.3, Cl 1.16-17) e mantenedor do Universo (Hb 1.2-3).

O Deus único (Dt 6.4), que existe eternamente como três pessoas (Jo 14.16-17, Is 48.16) – Pai, Filho e Espírito Santo -, se fez semelhante a nós, na pessoa de Jesus Cristo, o eterno Filho de Deus (Mc 14.60-62).

A humanidade de Cristo

O fato de ter nascido de Maria, sendo concebido pelo poder do Espírito Santo (Mt 1.18), demonstra a infinita sabedoria de Deus em combinar a influência humana e a influência divina no nascimento de Jesus (Mt 1.20-21, Gl 4.4-5).

Se pensarmos por um momento em outros meios possíveis pelos quais Cristo poderia ter vindo ao mundo (1Jo 4.2-3), nenhum deles uniria com tamanha clareza a humanidade e a divindade em uma única pessoa (Mt 1.22-23).

Jesus foi em tudo semelhante ao homem, à exceção do pecado (Jo 8.46, 2Co 5.21, 1Pe 1.19). Ele nasceu como nascem os bebês (Lc 2.7), passou por um processo de aprendizado assim como acontece com todas as crianças (Lc 2.40), aprendeu a comer, a falar, a ler, a escrever, e a ser obediente aos pais (Lc 2.51-52, Hb 5.8). Tinha sentimentos (Jo 11.35), emoções (Mc 14.34, Hb 5.7) e vontades humanas (Mc 14.36). Ficava cansado (Jo 4.6), tinha fome (Mt 4.2), sede (Jo 19.28), e estava sujeito à dor (Jo 19.1-3), fraqueza (Lc 23.26, Mc 14.38), angústia (Lc 12.50) e morte (Lc 23.46).

Mesmo após a ressurreição, Jesus permaneceu com sua plena natureza humana (Jo 20.25-27, Lc 24.39-43). A diferença é que na ressurreição seu corpo perecível se transformou em um corpo glorificado (1Co 15.8,42-43). Assim como acontecerá com todo aquele que crê na vida, morte e ressurreição de Jesus (1Jo 3.1-2, Fp 3.21).

Jesus deixou de ser Deus?

Mas como Jesus poderia ser onipotente e ainda assim sentir dor? (Is 53.3) Como poderia ser onisciente e, ao mesmo tempo, não saber o dia de sua volta? (Mc 13.32) Como poderia ser imortal, e ainda assim, ter morrido em nosso lugar? (Rm 5.6)

Pela dificuldade que temos em compreender esse paradoxo (1Co 2.4-8), por interpretar mal algumas passagens bíblicas ou retirá-las de seu contexto, é comum pensarmos que Jesus deixou de ser Deus enquanto esteve na Terra, que realizava milagres somente pela ação do Espírito Santo (At 10.38), ou que recebeu poder divino somente após o batismo (Jo 1.32).

Porém, de acordo com a Bíblia, em momento algum Jesus deixou de ser Deus, nem mesmo durante a infância (Is 9.6). Jesus foi chamado de “Senhor”, mesmo quando ainda estava no ventre de Maria (Lc 1.43) e também quando ainda era bebê (Lc 2.11).

Jesus demonstrou ser Deus

O próprio Jesus, enquanto homem, afirmou ser Deus (Jo 10.30, Jo 14.9), demonstrou sua onipotência (Mt 8.13,26-27, Jo 2.7-9), sua onisciência (Mc 2.8, Mt 17.27, Jo 6.64) e declarou sua eternidade (Jo 8.58, Ap 22.13 com Ap 1.8 ).

Por inúmeras vezes Jesus aceitou ser adorado pelos homens (Mt 14.33, Lc 17.15-19, Mt 8.2-3, Mt 9.18-19, Jo 9.38-39). Diferente de Paulo (At 14.11-15), Pedro (At 10.25-26) e até mesmo de um anjo (Ap 22.8-9), que rejeitaram receber adoração, e deixaram claro que o único digno de ser adorado é Deus (Mt 4.10).

E além disso, outra forte demonstração de que Jesus permaneceu sendo Deus enquanto homem, foi o fato de perdoar pecados (Mc 2.5-7, Lc 7.48-49). Somente aquele que recebe a ofensa é que pode perdoar (Mt 6.14-15, Lc 15.21). Se Jesus não fosse Deus, não haveria nenhuma ofensa contra ele e, consequentemente, ele não teria autoridade alguma para perdoar pecados (Dn 9.8-9).

Como observou C. S. Lewis, se Cristo não é Deus, então não poderia ter sido um grande mestre de moral, pois ele afirmava ser Deus. Se não era quem dizia ser, era mentiroso ou lunático, e não um mestre de moral. Aliás, seria o próprio diabo em pessoa.

Leia também: “Descobrindo a Verdade”.

As duas naturezas em Jesus Cristo

A verdade é que em momento algum Jesus abandonou, deixou de lado ou se esvaziou de sua divindade, ou mesmo de seus atributos divinos.

O termo “esvaziou-se”, encontrado em Filipenses (Fp 2.7), significa apenas que Jesus “se fez sem nenhum valor” quando assumiu a forma humana.

Sendo Deus, ele tinha plena ciência de quando deveria ou não recorrer ao seu poder divino (Lc 4.3-4 com Mt 14.19-21) e de quando deveria ou não se sujeitar às fraquezas e limitações de sua natureza humana (Jo 7.30 com Jo 18.4-12).

Como Jesus fazia isso? Nós não temos condições intelectuais para entender totalmente (1Co 1.27, Rm 11.33-36). Este é, e permanecerá, como um dos mistérios mais profundos da fé cristã (1Tm 3.16).

Contudo, a fundamentação bíblica, tanto da perfeita divindade como da perfeita humanidade de Cristo, é incontestável. E assim como acontece no caso da Trindade divina, não cremos porque entendemos, cremos porque é bíblico (Jo 17.17).

Todas as tentativas realizadas ao longo da história, a fim de simplificar essa doutrina para torná-la mais compreensível, sempre se revelaram falhas e antibíblicas (2Jo 9, 2Co 11.3-4).

Algumas conclusões antibíblicas

Três delas aconteceram já nos primeiros séculos da Igreja:

1. O apolinarismo (Apolinário, 310-390 d.C)

A primeira defendia a ideia de que Deus assumiu um corpo humano, sem alma ou espírito, sendo estes provenientes apenas da natureza divina. Porém, se Jesus tivesse assumido apenas um corpo, sem alma ou espírito humano, não seria um homem completo (1Ts 5.23).

2. O nestorianismo (Nestório, 386-451 d.C)

A segunda entendia que havia duas pessoas distintas em Cristo, uma pessoa humana e outra divina. Mas ainda que possamos distinguir ações de natureza humana (Jo 11.33-38) e ações de natureza divina (Jo 11.39-44) em Cristo, a Bíblia claramente aponta Jesus como uma única pessoa.

3. O monofisismo ou eutiquianismo (Eutiques 378-454 d.C)

E a terceira entendia que a natureza humana de Cristo foi absorvida pela natureza divina, de modo que as duas naturezas se modificaram, dando lugar a um terceiro tipo de natureza. Mas, se assim fosse, Cristo não seria nem verdadeiramente Deus nem verdadeiramente homem.

A necessidade das duas naturezas de Cristo

E por que sempre foi, e continua sendo, tão importante defender a coexistência de duas naturezas (divina e humana) na pessoa única de Jesus Cristo?

Primeiro, porque este é o ensinamento bíblico, e segundo, porque no próprio plano divino de salvação, era absolutamente essencial que o Mediador fosse verdadeiramente Deus (Sl 49.7-9, Sl 130.3-7) e verdadeiramente homem (1Tm 2.5-6, Rm 5.18-19).

Somente um ser humano sujeito a sofrer no corpo e na alma (Jo 12.27, Jo 13.21, Mt 26.38), que vivesse as profundas misérias da humanidade, poderia identificar-se com todas as nossas experiências, provações e tentações (Hb 2.14). Só assim ele poderia ser verdadeiramente tentado (Hb 2.18), se manter sem pecado (Hb 4.15, 1Pe 2.22, 1Jo 3.5), e oferecer-se como sacrifício em nosso lugar (Hb 2.17). Além, é claro, de ser um perfeito exemplo humano para que pudéssemos segui-lo (1Jo 2.6, Rm 8.29, 1Pe 2.21).

Por outro lado, se não fosse Deus, mas apenas um homem, por mais perfeito que fosse, não poderia apresentar um sacrifício infinito (Hb 9.12, 1Pe 3.18), dando a possibilidade de redenção à todos os seres humanos (2Co 5.14-19), inclusive aqueles que ainda não haviam nascido, como eu e você (1Pe 1.8-9, Rm 15.21). Se Jesus não fosse plenamente Deus, jamais poderia conceder salvação eterna aos que o aceitassem pela fé (Jo 10.27-28, 2Co 6.2).

Conclusão

O Filho de Deus, infinito, onipresente e eterno, tornar-se homem e unir-se para sempre a uma natureza humana (Fp 2.5-11). Trata-se, de longe, do maior milagre de toda a Bíblia, muito maior do que a ressurreição ou a criação do Universo.

“‘Permanecendo o que era, tornou-se o que não era’. Em outras palavras, enquanto Jesus ‘permanecia’ o que era (ou seja, plenamente divino), ele também tornou-se o que não fora antes (ou seja, também plenamente humano). Jesus não deixou nada de sua divindade quando se tornou homem, mas assumiu a humanidade que antes não lhe pertencia.”

Sendo gerado pelo Espírito Santo no ventre de Maria, nasceu e viveu sem pecado, morreu pela humanidade, ressuscitou dos mortos, e voltará em breve (At 1.11), pois continua vivo e viverá para sempre (Hb 13.8, Hb 9.28, Ap 22.12-13, Cl 1.15-20). Sendo 100% Deus e 100% homem (Jo 17.3-5).

Referências bibliográficas:

GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.
BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001.
LEWIS, C.S. Cristianismo puro e simples. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.
WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento: volume II. Santo André: Geográfica Editora, 2006.

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